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Enviada especial
 


Engole o choro!

 

Outro dia, perdi a paciência com um cidadão. A etiqueta diz que pode: mantenha a classe, mas, se pisarem no seu calo, desça do salto e meta o dito na cabeça do indivíduo. Foi o que eu fiz. E não me arrependo.

 

O desabafo me aliviou, mas meu pobre coraçãozinho, tão espicaçado, precisava da equipe de apoio. Pois acha que alguém estava preocupado com meu peito em retalhos? Não! Eu só ouvi uma coisa:

 

- Você não devia ter descido do salto. Devia ter bancado a indiferente. Ele agora está se achando.

 

Gente, o que é isso? A civilização do engole-o-choro? Eu devo ficar me consumindo e, na rua, dar dois beijinhos no monstro? Só pra parecer “bem”? Acontece que eu não quero apenas parecer bem. Eu quero ESTAR bem.

 

Tá, também acho que o ideal é manter a calma sempre. Nem que seja pra evitar doenças e micos. Mas que isso seja feito sinceramente, e não à base de fingimento. Porque engolir desaforo adoece.

 

Mas e daí, né? O importante é aparecer linda, malhada, bem-sucedida, loira, escovada e indiferente. Ninguém pode chorar, ninguém pode sofrer, ninguém pode ter raiva. É a alma botoxizada.

 

- Eu estou bem! Eu estou ótima! Podem ver! – berra a criatura e, a cada passo, deixa uma poça de sangue no chão. Não é de dar pena?

 

O mais engraçado é que quem gosta de bancar o indiferente assume que está preocupado mesmo é com o outro. Diz: “Eu vou engolir, porque não quero que ELE fique se achando. Porque ELE isso e ELE aquilo”. Ou seja, é o outro que conta. O outro e o que ele está pensando.

 

Ê, vaidade gorda! A auto-estima que se dane. Porque auto-estima é se gostar tanto, mas tanto, que a gente só consegue viver segundo suas convicções – por mais loucas que elas pareçam. É fazer o que você quer fazer. E não o que você pensa que tem que fazer. Fazer e assumir as conseqüências, claro!

 

Vaidade é justamente o contrário: é ficar pensando no que os outros estão pensando de você. É estar mais preocupado em parecer bem do que em estar bem. Não são conceitos meus (infelizmente), e sim da psicologia.

 

Outra coisa: e daí se o outro está se achando, se tendo certeza, se imaginando, se presumindo? O que moléstia eu tenho a ver com isso? Quer dizer que o outro tem que sofrer feito cachorro pra eu me sentir bem?

 

E, afinal, por que ter vergonha do nosso sofrimento ou da nossa raiva?

 

Eu fico imaginando aquelas mães que dizem pros filhos: “Engole o choro!”. Principalmente para os meninos, coitados, que aprendem a ficar sem essa válvula de escape. Sim, porque homem não chora, né? Ou então aqueles que se desesperam quando uma criança chora. “Ai, Meu Deus, não chora, não chora, meu amor. Toma um bombom”.

 

Como se chorar e se entristecer e se enraivecer fossem a coisa mais absurda e proibida deste mundo. Vote!



Escrito por Pops às 18h46
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